Para iniciantes
A história do tarot: das cartas de jogo à leitura espiritual

Neste artigo
A história do tarot começa bem longe da leitura espiritual. As primeiras cartas de tarot surgiram no norte de Itália, no século XV, como um jogo de cartas da aristocracia. Só vários séculos mais tarde, sobretudo a partir do final do século XVIII, é que passaram a ser usadas para adivinhação e reflexão simbólica.
Conhecer esta evolução ajuda-te a ler com mais consciência. Percebes de onde vêm os símbolos, porque é que existem baralhos diferentes e porque é que algumas ideias populares, como a origem egípcia do tarot, não têm fundamento histórico.
Itália, século XV: os tarocchi
Os baralhos de cartas chegaram à Europa no final da Idade Média. No norte de Itália, em cortes como as de Milão e Ferrara, surgiu uma novidade: um baralho com os quatro naipes habituais e uma série extra de cartas ilustradas, os trunfos. Esse jogo ficou conhecido como tarocchi.
Alguns destes baralhos foram pintados à mão para famílias nobres. Os mais famosos são os chamados baralhos Visconti-Sforza, ligados às famílias que governavam Milão. Muitas figuras que hoje reconhecemos, como o Carro, a Roda da Fortuna ou a Morte, já lá estavam, inspiradas em temas comuns da arte e da moral da época.
Nesta fase, o tarot era um jogo de vazas, parecido com outros jogos de cartas. Não há indícios sólidos de que fosse usado para prever o futuro.
O Tarot de Marselha
O jogo espalhou-se para França e Suíça. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, produziu-se em França, com grande difusão a partir de Marselha, um modelo de baralho gravado em madeira e colorido com cores fortes. É o que hoje chamamos Tarot de Marselha.
Este modelo fixou a ordem e a aparência de muitos trunfos e tornou-se uma referência. Ainda hoje há quem aprenda e leia com ele. Curiosamente, em França, o tarot continua também a ser jogado como jogo de cartas.
Os ocultistas do século XVIII
A grande mudança acontece no final do século XVIII. Em 1781, o estudioso francês Antoine Court de Gébelin publicou, na sua obra Le Monde primitif, a tese de que o tarot guardava a sabedoria secreta dos antigos egípcios. Não apresentou provas, e os historiadores rejeitam hoje essa ideia. Mas a teoria teve enorme impacto.
Pouco depois, Jean-Baptiste Alliette, conhecido como Etteilla, criou um dos primeiros baralhos pensados especificamente para a cartomancia e publicou métodos de leitura. A partir daqui, o tarot passou a ser visto como um livro de símbolos esotéricos.
No século XIX, o francês Éliphas Lévi associou os 22 trunfos às 22 letras do alfabeto hebraico e à Cabala. Estas ligações moldaram profundamente o tarot ocultista que se seguiu.
A Golden Dawn e o baralho Rider-Waite-Smith
No final do século XIX, em Inglaterra, a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn) organizou um sistema completo de correspondências entre tarot, astrologia, elementos e Cabala. Muitas associações que ainda hoje usamos, como a ligação entre cartas e signos, vêm deste sistema. Vê como funcionam no artigo sobre tarot e astrologia.
Dois membros da Golden Dawn, Arthur Edward Waite e a artista Pamela Colman Smith, criaram em 1909 o baralho publicado pela editora Rider, em Londres. A grande inovação foi ilustrar todas as 78 cartas com cenas, incluindo os Arcanos Menores, que antes mostravam sobretudo símbolos repetidos. Isto tornou o baralho muito mais fácil de aprender. Sabe mais em porque é que o Rider-Waite é o baralho mais usado para aprender.
O Diabo: um bom exemplo da evolução dos símbolos
A carta de O Diabo mostra bem como o simbolismo mudou ao longo do tempo. Nos baralhos antigos, a figura refletia a imagem medieval do demónio. No Rider-Waite-Smith, vemos uma criatura com chifres e asas de morcego sobre um pedestal, com um homem e uma mulher acorrentados à frente. Mas as correntes estão largas: poderiam tirá-las se quisessem.
Esta leitura psicológica, de prisões que nós próprios aceitamos, é fruto da evolução do tarot para uma ferramenta de reflexão. Aprofunda em o significado de O Diabo.
Do século XX aos dias de hoje
Ao longo do século XX surgiram muitos outros baralhos, como o Thoth, criado por Aleister Crowley e pintado por Frieda Harris. Nas últimas décadas, o tarot ganhou uma nova vida como ferramenta de autoconhecimento, criatividade e reflexão pessoal, e hoje existem milhares de baralhos diferentes.
Ainda assim, o Rider-Waite-Smith continua a ser a base mais usada para aprender. É também o baralho usado no curso Método Mestre Cruz, com as 78 cartas estudadas uma a uma.
O que esta história te ensina como leitor
- Os símbolos têm raízes culturais: muitos vêm da arte e da moral europeia do Renascimento.
- As interpretações evoluíram: o tarot que lês hoje é fruto de séculos de camadas sucessivas.
- Tradição não é facto histórico: podes respeitar o simbolismo sem acreditar em origens lendárias.
Perguntas frequentes
O tarot vem do antigo Egito?
Não há provas disso. A ideia foi lançada no século XVIII por Court de Gébelin e tornou-se popular, mas os documentos mais antigos apontam para o norte de Itália no século XV.
Quando começou o tarot a ser usado para adivinhação?
Há referências dispersas a usos divinatórios antes, mas a prática tornou-se conhecida e organizada sobretudo a partir do final do século XVIII, com autores como Etteilla.
Porque se chama Rider-Waite-Smith?
Rider é a editora que publicou o baralho em 1909, Waite é o autor que o concebeu e Smith é Pamela Colman Smith, a artista que o ilustrou. Hoje reconhece-se cada vez mais o seu papel e por isso se junta o seu nome.


